Ao quilómetro 96,500 da Linha do Minho, as faíscas douradas emanam por entre os grossos pingos da chuva, o carril parece gritar de contentamento e o cheiro é intenso e inebriante.
Som da Esmeriladora e da Passagem de Nível
“Meus meninos andam a ver se está tudo bem? Olhem que eu há quase 50 anos que por aqui ando todos os dias para apanhar o comboio e gosto muito desta Estação. Continuem a cuidar dela, a mantê-la limpinha, sim?”
Passam 25 minutos das 16 horas e a equipa da Infraestruturas de Portugal (IP) encontra-se na Estação ferroviária de Caminha, na Linha do Minho. A Dona Maria conta-nos histórias que se espalham por cinco décadas, dos idos tempos da mudança de Bragança para uma localidade perto de Caminha. Histórias de viagens, de conversas nos bancos da Estação, do marido agente da autoridade falecido, dos filhos que vivem em Espanha. Histórias de uma mobilidade que se transformou, evoluiu e que permite ligar cidades, pessoas, vidas. E sim, “continuaremos a mantê-la limpinha, Dona Maria”, que entra contente, para o comboio, com a promessa.
Entre sorrisos, depois de uma conversa tão ternurenta, discute-se agora o trabalho que será realizado de madrugada, trocam-se opiniões, explica-se o que vai acontecer e em que moldes. Comecemos por aí, por perceber o que vai acontecer, pelo conceito de Esmerilagem: trabalhos que consistem na remoção de uma fina camada metálica da superfície do carril, corrigindo ondulações causadas pelo contacto contínuo das rodas do material circulante, microfissuras superficiais que podem evoluir para ruturas e o desgaste irregular que aumenta o ruído e reduz o conforto de marcha. “Avancemos equipa, vamos trabalhar, amanhã os passageiros vão sentir-se mais confortáveis nas suas viagens”, incentivou uma das responsáveis da IP presentes.
Faíscas na intensa tempestade
Sete horas depois a Esmeriladora MECNO MS14S liga os motores. O relógio marca 23h58 e o acordar da máquina abafa o barulho da chuva intensa no telhado da Estação. As equipas destacadas preparam-se numa azáfama serena: a via está interdita com corte de tensão na catenária e os comboios repousam. Todos estão adequadamente vestidos com os equipamentos de Proteção Individual e o Vestuário de Proteção e a ordem de trabalhos é conhecida. Esperam-se uns minutos enquanto o sinal se mantém vermelho. Às 00h07 uma luz branca rompe o escuro da noite, a autorização final é dada, e a poderosa máquina avança pela linha férrea para tratar o carril a partir do Apeadeiro de Vila Praia de Âncora.
Chove com uma intensidade desmedida ao quilómetro 96,500 da Linha do Minho, mas a Esmeriladora não cede. Ninguém cede. As faíscas douradas emanam por entre os grossos pingos da chuva, o carril parece gritar de contentamento quando diversas pedras de esmeril cuidam de todos os seus ângulos. O cheiro é intenso e inebriante. Tudo porque o processo de esmerilar liberta o odor particular da resina das mós, sinal da fricção e da energia térmica envolvidas na abrasão do metal.
Dois quilómetros depois e quatro passagens com a Esmeriladora, terminam os trabalhos. São 04h13, a violência da chuva continua, mas a linha férrea brilha iluminada por focos intensos de luz. Ao nascer do sol, quando os comboios voltarem a mover-se, o rodado sentirá que horas antes ali estiveram profissionais que, como fazem habitualmente ao longo de centenas de quilómetros de via, cuidaram da segurança, do conforto e da mobilidade sustentável de pessoas e empresas.
Trabalhos que fazem mover Portugal
Na Linha do Minho, na Linha do Douro e na Concordância de S. Germil, a campanha de Esmerilagem continuará nos próximos meses, num trabalho noturno, sem holofotes, mas essencial para a segurança e comodidade de quem, todos os dias, utiliza o carril como infraestrutura primordial para a sua mobilidade. Entretanto, os comboios continuam a passar — rápidos, regulares e seguros — porque dezenas de profissionais, em madrugadas frias ou de intempéries, cuidam das linhas que fazem mover Portugal.
Factos e curiosidades sobre a Esmerilagem
- Criada nos anos 30, a função de uma Esmeriladora comum é polir, lixar e fazer acabamento em peças de aço e estruturas metálicas em geral;
- Na ferrovia, a Esmeriladora de carril é um pouco maior, e a utilizada na linha do Minho é uma máquina com 18 metros de comprimento, 2,5 metros de largura e 2,7 metros de altura, pesando aproximadamente 20 toneladas;
- A quantidade de material removido no processo de esmerilagem é mínima - normalmente entre 0,1 e 0,3 mm por passagem;
- As máquinas têm sistemas de medição automática e registam a geometria da via, o perfil do carril e a temperatura, ajustando a pressão das mós abrasivas em tempo real;
- Durante o trabalho de esmerilagem são produzidas faíscas que ficam confinadas ao espaço da via-férrea, podendo ocorrer projeções pontuais para a área circundante. Com tempo seco a execução deste trabalho é acompanhada de meios para extinção rápida de incêndios e durante os períodos com risco de incêndio declarado este trabalho não é executado;
- As mós abrasivas, do tipo tangencial, têm um diâmetro de 350 mm com diferentes espessuras em função da zona do carril a reperfilar. O diâmetro de 350 mm permite uma duração de trabalho na ordem das oito horas, não sendo usualmente necessário interromper o processo para substituir as mós gastas;
- Após a esmerilagem, é comum realizar inspeções ultrassónicas para verificar a integridade interna dos carris.